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domingo, 26 de junho de 2016

Crônica da semana: Cabe na palma da mão



A fila chegava à central do Brasil. Voyeurs observavam aqueles que carregavam nas costas o peso da sobrevivência, o peso do desprezo social. Tratava-se de alumínio, de todos os tipos e tamanhos, inclusive desses que espalhamos pela cidade. Fotografias, vídeos, flashes iluminavam a grande linha humana e metálica. Os indivíduos eram fortes, e na face um falso sorriso de que tudo daria certo. A vida passa, a fila anda e o riso se desfaz ao olharem para balança; resultado da espera: moedas que cabem na palma da mão não alimenta.



                                                                                                                          Renata Ferreira

sábado, 18 de junho de 2016

Crônica: Face to face é coisa do pretérito


Se há alguém que ama estar diante da janela, horas a fio, sem comer, sem dormir, e indo poucas vezes ao banheiro, esse é o homem contemporâneo. Admirável homem novo, cérebro superdotado, uma visão de raio x, uma mistura de The Vision com Superman, capaz de apreciar cada detalhe desse mundão. 

 De quando em quando precisa de óculos, mazela inevitável até para um super-herói, pois a vista cansa, não importa a idade; as óticas lucram (alguém sempre lucra). Como um ser racional e inteligentíssimo viciou-se nessa que deveria ser parceira, mas o aprisiona num presídio de segurança máxima, ou não tão máxima assim, assemelhando-se a um labirinto, cuja maior parte do tempo é desperdiçada. 

Esse homem, espertíssimo, carrega a janela como se fosse um novo membro, implantado em seu corpo pela tecnologia de outros homens, mais sagazes ainda (sempre há alguém mais esperto). Pela manhã, a luz da janela não o incomoda, ao contrário, o despertar é certo; são tantas informações primordiais nas primeiras horas do dia, que a dificuldade para acordar foi para o espaço (que bom, afinal vantagens são essenciais nas escolhas).  O dia começa e o homem segue com a sua melhor companhia: na mesa do café da manhã, no transporte, no trabalho (entre uma advertência e outra, pois não há concentração); no almoço; na volta para casa, defecando, na mesa de jantar etc.

 Veja bem, ainda há muitas opções e tamanhos de janelas, o que é perfeito para adequação e momento. Então, basta o cara escolher uma rede, sentar e viajar. São tantos os benefícios que fica difícil listá-los aqui, em síntese, pode-se dizer que é tudo muito prático e ainda evita a fadiga. 

Exemplos das utilidades e ganhos:   pode-se ter um milhão de amigos que sentam na sua calçada de vez em quando, na verdade raramente; pode-se falar sobre a vida, sobre política e o sobre país, e realmente acreditar que falar por horas,  sem nenhum conhecimento e reproduzindo discursos,   bastará para resolver alguma coisa; pode-se gritar o vocabulário do momento como: impeachment, golpe, direita, esquerda, fascismo, inquérito etc , sem entender bulhufas ; pode-se ser homofóbico, machista, e pedófilo e se sentir protegido e impune;  pode-se tentar resolver problemas familiares; pode-se tentar uma conciliação com a esposa que está na janela do outro quarto; pode-se acenar para os amigos de longa data e acreditar que está presente na vida deles...

 E isso tudo, pasmem, virtualmente. Face to face é coisa do pretérito.

Renata Foli


terça-feira, 17 de maio de 2016

Crônica (vivida) da semana: Insônia



1h25 da manhã, ainda é cedo para falar de insônia? Talvez. Mas o corpo e a mente sabem o que acontecerá nas horas seguintes. Os olhos não fecharão, as olheiras gritarão e a ansiedade acordará. Essa virá sem controle, como criança sem limites. Uma espécie de entidade espiritual que fala através do corpo. Esse, perderá a força, e obedecerá. Comerá o que não deve, beberá o que não aprecia, se drogará com aquele alimento cuja matéria-prima é o cacau, ou ainda, se entupirá com a bebida produzida com os grãos do fruto cafeeiro. Mas a boca continuará seca, seca, entende? Os pensamentos perderão o rumo, como se estivessem num mar revolto, cuja ressaca inundará os olhos e alma. Transbordarei. De quando e quando a entidade (ansiedade) relaxará, momento no qual lerei ou escreverei abobrinhas incolores.  As coisas, mesma as pigmentadas, perderão as cores durante o distúrbio. Logo, peço perdão aos lindos poemas lidos durante a madrugada, ou melhor aos poetas. Bom, neste momento vou perdendo a capacidade de escrever, se é que a tenho. Ela chega. 

Renata Foli

terça-feira, 26 de abril de 2016

Crônica: Tempo tempo tempo





Quer saber duma coisa: os desencontros são cruéis. Quer ser feliz? Encontre tempo para família, para os amigos, para aquela pessoa que conheceu ontem mas parece que é amigo de infância, para curtir o filho, o namorado, o marido, e todo mundo. Quer saber doutra coisa: quer ser feliz? Invista em você, trabalhe muito, estude muito, faça cursos de extensão, cuide da saúde; já foi para academia hoje? No final de semana tem que estudar para o concurso; e o novo idioma? Já está dominando? Não tem tempo? Arrume, dê um jeito, você é inteligente, cheio de vida. E a poupança? Está guardando dinheiro para o futuro? Que futuro? O seu, que será maravilhoso. Está sem tempo para conciliar amigos, trabalho, estudo? Tem que conseguir. Não quer ser feliz? E aquela colega do antigo trabalho que você adorava? Vocês ainda se falam? Tinham tanto em comum. E a sua melhor amiga? Já tem 2 meses que não se veem. E o seu marido? ele disse que você nem liga mais para o casamento. Ainda o ama? Ele está numa carência só, vai procurar outra, hein! O seu filho ficou doente, pode vir para casa? Ainda não? Mas, por quê? Tem muito trabalho ainda aí? Mas, seu filho. Deixa, vou dar um remédio aqui para passar a febre. Sua tese está pronta? E a planilha que tem que entregar para o financeiro amanhã, está ok? Ligou para sua mãe hoje? E a faculdade, quando termina? E aquele livro de poemas que ia fazer, ainda não terminou? Quer saber, não sabe lidar com tempo. Isso é falta de responsabilidade ou de competência? Tem gente que consegue fazer tudo e muito bem. Não acredita? Tem sim. É, talvez você tenha razão, o tempo e a vida são ingratos, conhecemos pessoas maravilhosas e não conseguimos vivê-las. Mas tudo bem, não precisamos ser capitalistas: menos trabalho, mais tempo para os amigos e família. E o aluguel, já pagou esse mês? Não estava no aniversário do Pedro. Fazia hora extra? Quer ser feliz? O que é ser feliz? É ter tudo isso, ora. Não acredita, o que pensa sobre a felicidade. Está cansado demais para responder? Acorda, já são seis da manhã: tem que ir para academia, trabalho, curso, faculdade. Não esqueça que amanhã é sábado e tem dois textos para entregar. É bom revisar bem, mandaram o revisor embora. Por que? Só sabia revisar. Domingo tem que terminar aquele livro. Tem que jantar com seu namorado, aniversário de namoro, lembra? Não dará tempo? Ah fique só 1 hora na companhia do seu amor. Durma cedo. Segunda, o despertador toca às 5h.


Renata Ferreira

segunda-feira, 25 de abril de 2016

19 não é 20


19 não é 20. E não é mesmo. O azeite está custando R$ 20, e levei para o mercado R$19. A inscrição para o concurso literário é R$40, para estudante universitário fica por R$ 20, juntando as moedas tem R$19,20. Manicure R$20, e só a mão hein. Melhor amolar o alicate e comprar uns esmaltes com os R$19. O site submarino tem livros na promoção. Qualquer um por R$19,99. É, não deu. 

Pois é, ter aquele diploma de universidade pública e o CR 9,9, não garante um bom emprego, às vezes nem um emprego. Ficar em primeiro lugar em todos os concursos de poesia na escola, não garante aquela publicação na editora que tanto almeja. Escrever bem nas redações escolares e na faculdade, não garante aquela coluna. 

É, a teoria não é a realidade. Sua geração não é a mais inteligente e com mais oportunidade. Seu orientador pode te desorientar. A saúde que sempre teve pode desmoronar.
É, você pode perder mesmo tendo tudo para ganhar. Você pode amar e não ser correspondido. Você pode ter filhos e não curtir ser mãe ou pai. Vestir-se em cores alegres, mas ser uma cor triste. Ser uma ótima advogada, lutar pelos direitos de todos, mas esquecer dos seus. Ou ainda ser uma ótima psicóloga, dar conselhos maravilhosos e não seguir nenhum. 

É, você pode ter mais de 20, e agir como uma criança de 10. E iss
o pode ser muito bom para algumas coisas e destruir outras em sua vida. Pois é, aquele relacionamento de 19 anos pode acabar antes de completar os 20.
É, nem tudo segue como planejamos. “É o rio da vida correndo”. Saber nadar pode impedir ou não um afogamento. Ás vezes, é preciso estender a mão e pedir ajuda.
Tem R$ 1 aí?


Renata Foli

sábado, 15 de novembro de 2014

Deusa Má e a performance vilanesca



Não me recordo de um texto fictício que narre a história de uma senhorinha que ao ficar desempregada tenta matar a patroa. Você lembra?
A realidade já é tão rica no quesito criatividade e perversidade que o pobre autor fica sem recursos para uma história marcada pela originalidade.
A cozinheira que ao ser presa, posou para os jornalistas e até mandou um “beijinho no ombro” vai muito além do que nossa imaginação.  
Nossa personagem real Deusamar de Jesus Lima Rodrigues foi presa, nesta sexta-feira (14), suspeita de envenenar a patroa. Segundo a polícia, ela confessou que envenenou a ex-prefeita de Nova Iguaçu, Sheila Gama, com chumbinho.
Fico imaginando essa senhorinha sentada em frente à TV, vendo um filme ou uma novela, ou qualquer obra fictícia que a inspirou. Mas, deixo esse pensamento e prefiro acreditar que ela imaginou tudo sozinha.
Ao saber que ia ficar desempregada e de tanto ouvir reclamações da patroa, pensou numa vingança macabra, e põe macabra nisso, deixou de ser a Deusamar e se tornou a Deusa MÁ.
Imaginem:
Uma senhora trabalhando numa casa pouco mais de um ano. Uma patroa exigente com os serviços domésticos e reclamando do trabalho da empregada diariamente. O ódio em ouvir cobranças e reclamações. O nascimento da vilã e o plano maléfico.
Imaginou?
Agora a cena:
A patroa tomava remédios regularmente e a Deusa Má em sua performance vilanesca trocou o conteúdo das cápsulas do remédio por chumbinho. E como uma vilã no início de carreira esqueceu os fracos do veneno em seu quarto.
Sheila foi internada e está mal à beça, chegou no hospital vomitando e com intensas dores abdominais. Precisou ser entubada, pois teve uma parada cardíaca. Ao que tudo indica, nossa vilã Deusa Má não teve sucesso, Sheila não morreu, mas seu quadro de saúde inspira cuidados.
Calma aí “Deusa Má”, sabemos que perder o emprego não é fácil. Diante da realidade do nosso país, já dá para imaginar o desespero. Sabemos que escutar críticas todos os dias também não.  Mas, uma vingança, uma tentativa de homicídio seguida de fuga:  é você entrou para a lista das velhinhas criminosas. E como toda vilã, teve seu momento de fama. Agora responda, aquele Beijinho no Ombro fazia parte da performance? É aquele V de vitória, seria na verdade o V de vingança?





Fotos: André Mourão/ Agência O Dia.


Texto: Renata Foli





terça-feira, 28 de outubro de 2014

A entrevista que não aconteceu / O último trem/ O último livro / para Lu


A entrevista que não aconteceu estava marcada num local que ele amava, uma biblioteca. Ele, com seus olhos esverdeados vermelhos, não enxergava mais os trilhos da vida, apenas vagava pelas ruas sem pensamentos, e quando os tinha, doía até a alma: abandono, tragédia, morte, perda, desilusões, solidão, desespero, fraqueza. O remédio que escolheu para findar com a mente era barato, conseguia em qualquer esquina ou becos da cidade.
Fugiu sem olhar para trás; deixou filhos, amigos, família, ideais. Transformou-se noutro, perdeu a cor, perdeu a casa, perdeu os sentidos; agora um morador de rua.  E como vagar era sua sina, vagou de SP para ES acompanhado das drogas e da Dor. Foram muitos anos assim, nada aconteceu; dizem por aí que Deus protege.
Vagou do ES para o Rio, cidade de sol, de mar, mas de violência e de tristezas; cidade das oportunidades, mas também do descaso, do preconceito e da humilhação.
Ao chegar aqui, conheceu um espaço que considerou mágico: uma biblioteca. Lá, viciou-se noutra coisa: a leitura. Lia compulsivamente e chamava atenção. Para muitos, era o mendigão que passava o tempo lendo, para outros, um homem recuperando sua mente, seus sentidos, sua vida.
Tomou a decisão que merecia, que precisava...
Fez amizades, transformou olhares, consumia menos drogas, lia mais livros (adorava Agatha Christie), voltou a ter prazer, voltou a ter esperança; desejou um emprego, um local para chamar de seu e reconquistar sua família.
Conseguiu ajuda, afinal lutar contra drogas não é fácil. Mas, ele venceu. Perdeu o medo e encarou uma internação. Alguns meses numa instituição com um único desejo: recuperar-se
 Aprendeu muitas coisas, dentre elas uma profissão e a sonhar com dias melhores.  Falava empolgado do processo de aprendizagem e desintoxicação.
O homem agora tinha face, cor, expressão, mas que isso tinha brilho nos olhos. Tudo pronto para receber alta:  emprego, salário, possibilidade de pagar por um lar, dignidade.
Primeiro dia de trabalho: eis o corpo que levanta, eis a mente que raciocina, eis a esperança que renasce, mas na estação de trem há viagens que não tem volta... vida por um triz...última história: a própria.
A realidade trilha caminhos que nunca poderemos imaginar, e quando menos esperamos nossa história é interrompida, e somos esmagados pelos trens da vida cujos vagões são intermináveis e pesados demais para suportar. Adeus Lu.


Renata Foli


domingo, 11 de maio de 2014

A MÃE DELES MORRENDO E ELES MENTINDO.



Era uma vez cinco filhos que não mereciam ser chamados assim.
Era uma vez cinco monstros.
Começar com Era uma vez, não é coerente, visto que essa história não é uma ficção. 
Há ótimas e lindas histórias para contar no Dia das Mães. Poderia fazer uma homenagem a minha, falar de mulheres fortes, de famílias unidas, mas nesse momento penso numa mãe que não é a minha, e foi uma sofredora. Penso nos filhos dessa mulher, e sinto raiva. Uma vontade imensa de desabafar. Mas, como fui mera voyeur só me resta relatar e despertar reflexões, ou não.
Ela fumava compulsivamente, não comia, não chorava, não dormia, apenas sofria e emagrecia. Eles a observavam, e só davam trabalho. Nenhuma alegria. Mentira, alguns deram netos, ou seja, um pouco de felicidade. Deram roupas para lavar, costurar e passar. Deram desgosto. Não davam amor. E mentiam para todos: “Ela está ótima, e está fumando menos”.
Ela era simples, ignorante, analfabeta, pobre, muito carente e amava imensamente seus filhos. Sofreu muito durante seu casamento; passou fome, mas os educou da melhor maneira que pôde; insistiu que estudassem e tivessem uma vida melhor.
Ela sofria com a vida, um peso que não suportava.  O marido faleceu, e “perdeu” um filho para as drogas.
Mas ainda restam quatro filhos. Certo?
Não.
Restam quatro mentirosos, falsos, hipócritas, quatro voyeurs. Quatro pessoas diante de um sofrimento visível. Diante da dor que não era dos outros, era da própria mãe. Quatro pessoas que causavam muita dor: Dor do abandono, Dor da indiferença, Dor do desamor...Quatro pessoas que estavam tão perto, tão longe.
Queria falar dos quatro aqui, mas confesso que sinto náuseas. Falarei de um. O pior de todos.
O mais novo, que não é tão novo assim.
Fulaninho é um ser desprezível.  Em todas as oportunidades que teve, escondeu sua mãe. Tinha vergonha. Tinha raiva de ser pobre e a culpava.
 Fulaninho virou evangélico, querido entre os amigos da igreja.
 Fulaninho aceitou Jesus e foi batizado. E ela, mesmo sabendo que seu filho a desprezava, desejou muito ver o batismo, porém foi proibida, ele não queria que seus irmãos da igreja a vissem. Ela imaginou que o tal do batismo o ajudaria a ser melhor. Estava enganada. Completamente enganada.
Fulaninho cantava alto músicas evangélicas, e em seguida mandava a mãe se foder. Fulaninho orava alto e em seguida mandava a mãe e seus irmãos tomarem no cu.
Fulaninho conseguiu um emprego, graças a um senhor da igreja, mas não queria ajudar em casa, mesmo sabendo que a mãe fazia uma refeição por dia. Fulaninho comprava roupas novas, comprou até um terno, enquanto sua mãe tinha alguns vestidos rasgados.
Ela não abria a boca, e não pedia ajuda. Nunca admitiu que precisava de ajuda. Nunca admitiu a indiferença do filho. Defendia. Dizia: “Ele é assim mesmo, puxou ao pai”. Dizia: “O cigarro tira minha fome”.
Ela estava fraca. A insensibilidade dos filhos a matava, principalmente a do Fulaninho, o caçulinha.
Eles (os quatro) sempre davam dinheiro para o cigarro, e consideravam isso um carinho. Eram muitos cigarros por dia, e uma tosse horrível. Ela raramente ia ao médico, mas sentia dores fortes no peito, e eles compravam mais cigarros.
Ela foi para o hospital.
Eles não se preocuparam.
Ela ficou em coma.
Recebeu algumas visitas.
Ela morreu.
...
Já que Fulaninho não tem mais mãe, passou a tarefa das roupas para irmã.
E disse: "A vida continua". 

 Renata Foli