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sexta-feira, 22 de maio de 2015
sábado, 15 de novembro de 2014
Deusa Má e a performance vilanesca
Não
me recordo de um texto fictício que narre a história de uma senhorinha que ao
ficar desempregada tenta matar a patroa. Você lembra?
A cozinheira
que ao ser presa, posou para os jornalistas e até mandou um “beijinho no ombro”
vai muito além do que nossa imaginação.
Nossa
personagem real Deusamar de Jesus Lima Rodrigues foi presa, nesta sexta-feira (14),
suspeita de envenenar a patroa. Segundo a polícia, ela confessou que envenenou
a ex-prefeita de Nova Iguaçu, Sheila Gama, com chumbinho.
Fico
imaginando essa senhorinha sentada em frente à TV, vendo um filme ou uma novela,
ou qualquer obra fictícia que a inspirou. Mas, deixo esse pensamento e prefiro
acreditar que ela imaginou tudo sozinha.
Ao
saber que ia ficar desempregada e de tanto ouvir reclamações da patroa, pensou
numa vingança macabra, e põe macabra nisso, deixou de ser a Deusamar e se
tornou a Deusa MÁ.
Imaginem:
Uma
senhora trabalhando numa casa pouco mais de um ano. Uma patroa exigente com os
serviços domésticos e reclamando do trabalho da empregada diariamente. O ódio
em ouvir cobranças e reclamações. O nascimento da vilã e o plano maléfico.
Imaginou?
Agora
a cena:
A
patroa tomava remédios regularmente e a Deusa Má em sua performance vilanesca
trocou o conteúdo das cápsulas do remédio por chumbinho. E como uma vilã no
início de carreira esqueceu os fracos do veneno em seu quarto.
Sheila
foi internada e está mal à beça, chegou no hospital vomitando e com intensas
dores abdominais. Precisou ser entubada, pois teve uma parada cardíaca. Ao que
tudo indica, nossa vilã Deusa Má não teve sucesso, Sheila não morreu, mas
seu quadro de saúde inspira cuidados.
Calma
aí “Deusa Má”, sabemos que perder o emprego não é fácil. Diante da realidade do
nosso país, já dá para imaginar o desespero. Sabemos que escutar críticas todos
os dias também não. Mas, uma vingança, uma tentativa de homicídio seguida
de fuga: é você entrou para a lista das velhinhas criminosas. E como toda
vilã, teve seu momento de fama. Agora responda, aquele Beijinho no Ombro fazia
parte da performance? É aquele V de vitória, seria na verdade o V de vingança?
Fotos: André Mourão/ Agência O Dia.
Texto: Renata Foli
terça-feira, 28 de outubro de 2014
A entrevista que não aconteceu / O último trem/ O último livro / para Lu
A
entrevista que não aconteceu estava marcada num local que ele amava, uma
biblioteca. Ele, com seus olhos esverdeados vermelhos, não enxergava mais
os trilhos da vida, apenas vagava pelas ruas sem pensamentos, e quando os
tinha, doía até a alma: abandono, tragédia, morte, perda, desilusões, solidão,
desespero, fraqueza. O remédio que escolheu para findar com a mente era barato, conseguia em qualquer esquina ou becos da cidade.
Fugiu
sem olhar para trás; deixou filhos, amigos, família, ideais. Transformou-se
noutro, perdeu a cor, perdeu a casa, perdeu os sentidos; agora um morador de rua. E como vagar era sua sina, vagou de SP para ES
acompanhado das drogas e da Dor. Foram muitos anos assim, nada aconteceu; dizem
por aí que Deus protege.
Vagou
do ES para o Rio, cidade de sol, de mar, mas de violência e de tristezas;
cidade das oportunidades, mas também do descaso, do preconceito e da humilhação.
Ao
chegar aqui, conheceu um espaço que considerou mágico: uma biblioteca. Lá, viciou-se
noutra coisa: a leitura. Lia compulsivamente e chamava atenção. Para muitos,
era o mendigão que passava o tempo lendo, para outros, um homem recuperando sua
mente, seus sentidos, sua vida.
Tomou
a decisão que merecia, que precisava...
Fez
amizades, transformou olhares, consumia menos drogas, lia mais livros (adorava Agatha
Christie), voltou a ter prazer, voltou a ter esperança; desejou um emprego, um
local para chamar de seu e reconquistar sua família.
Conseguiu
ajuda, afinal lutar contra drogas não é fácil. Mas, ele venceu. Perdeu o medo e
encarou uma internação. Alguns meses numa instituição com um único desejo:
recuperar-se
Aprendeu muitas coisas, dentre elas uma
profissão e a sonhar com dias melhores. Falava empolgado do processo de aprendizagem e
desintoxicação.
O
homem agora tinha face, cor, expressão, mas que isso tinha brilho nos olhos.
Tudo pronto para receber alta: emprego,
salário, possibilidade de pagar por um lar, dignidade.
Primeiro
dia de trabalho: eis o corpo que levanta, eis a mente que raciocina, eis a
esperança que renasce, mas na estação de trem há viagens que não tem volta...
vida por um triz...última história: a própria.
A
realidade trilha caminhos que nunca poderemos imaginar, e quando menos esperamos
nossa história é interrompida, e somos esmagados pelos trens da vida cujos
vagões são intermináveis e pesados demais para suportar. Adeus Lu.
Renata Foli
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