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sábado, 15 de novembro de 2014

Deusa Má e a performance vilanesca



Não me recordo de um texto fictício que narre a história de uma senhorinha que ao ficar desempregada tenta matar a patroa. Você lembra?
A realidade já é tão rica no quesito criatividade e perversidade que o pobre autor fica sem recursos para uma história marcada pela originalidade.
A cozinheira que ao ser presa, posou para os jornalistas e até mandou um “beijinho no ombro” vai muito além do que nossa imaginação.  
Nossa personagem real Deusamar de Jesus Lima Rodrigues foi presa, nesta sexta-feira (14), suspeita de envenenar a patroa. Segundo a polícia, ela confessou que envenenou a ex-prefeita de Nova Iguaçu, Sheila Gama, com chumbinho.
Fico imaginando essa senhorinha sentada em frente à TV, vendo um filme ou uma novela, ou qualquer obra fictícia que a inspirou. Mas, deixo esse pensamento e prefiro acreditar que ela imaginou tudo sozinha.
Ao saber que ia ficar desempregada e de tanto ouvir reclamações da patroa, pensou numa vingança macabra, e põe macabra nisso, deixou de ser a Deusamar e se tornou a Deusa MÁ.
Imaginem:
Uma senhora trabalhando numa casa pouco mais de um ano. Uma patroa exigente com os serviços domésticos e reclamando do trabalho da empregada diariamente. O ódio em ouvir cobranças e reclamações. O nascimento da vilã e o plano maléfico.
Imaginou?
Agora a cena:
A patroa tomava remédios regularmente e a Deusa Má em sua performance vilanesca trocou o conteúdo das cápsulas do remédio por chumbinho. E como uma vilã no início de carreira esqueceu os fracos do veneno em seu quarto.
Sheila foi internada e está mal à beça, chegou no hospital vomitando e com intensas dores abdominais. Precisou ser entubada, pois teve uma parada cardíaca. Ao que tudo indica, nossa vilã Deusa Má não teve sucesso, Sheila não morreu, mas seu quadro de saúde inspira cuidados.
Calma aí “Deusa Má”, sabemos que perder o emprego não é fácil. Diante da realidade do nosso país, já dá para imaginar o desespero. Sabemos que escutar críticas todos os dias também não.  Mas, uma vingança, uma tentativa de homicídio seguida de fuga:  é você entrou para a lista das velhinhas criminosas. E como toda vilã, teve seu momento de fama. Agora responda, aquele Beijinho no Ombro fazia parte da performance? É aquele V de vitória, seria na verdade o V de vingança?





Fotos: André Mourão/ Agência O Dia.


Texto: Renata Foli





terça-feira, 28 de outubro de 2014

A entrevista que não aconteceu / O último trem/ O último livro / para Lu


A entrevista que não aconteceu estava marcada num local que ele amava, uma biblioteca. Ele, com seus olhos esverdeados vermelhos, não enxergava mais os trilhos da vida, apenas vagava pelas ruas sem pensamentos, e quando os tinha, doía até a alma: abandono, tragédia, morte, perda, desilusões, solidão, desespero, fraqueza. O remédio que escolheu para findar com a mente era barato, conseguia em qualquer esquina ou becos da cidade.
Fugiu sem olhar para trás; deixou filhos, amigos, família, ideais. Transformou-se noutro, perdeu a cor, perdeu a casa, perdeu os sentidos; agora um morador de rua.  E como vagar era sua sina, vagou de SP para ES acompanhado das drogas e da Dor. Foram muitos anos assim, nada aconteceu; dizem por aí que Deus protege.
Vagou do ES para o Rio, cidade de sol, de mar, mas de violência e de tristezas; cidade das oportunidades, mas também do descaso, do preconceito e da humilhação.
Ao chegar aqui, conheceu um espaço que considerou mágico: uma biblioteca. Lá, viciou-se noutra coisa: a leitura. Lia compulsivamente e chamava atenção. Para muitos, era o mendigão que passava o tempo lendo, para outros, um homem recuperando sua mente, seus sentidos, sua vida.
Tomou a decisão que merecia, que precisava...
Fez amizades, transformou olhares, consumia menos drogas, lia mais livros (adorava Agatha Christie), voltou a ter prazer, voltou a ter esperança; desejou um emprego, um local para chamar de seu e reconquistar sua família.
Conseguiu ajuda, afinal lutar contra drogas não é fácil. Mas, ele venceu. Perdeu o medo e encarou uma internação. Alguns meses numa instituição com um único desejo: recuperar-se
 Aprendeu muitas coisas, dentre elas uma profissão e a sonhar com dias melhores.  Falava empolgado do processo de aprendizagem e desintoxicação.
O homem agora tinha face, cor, expressão, mas que isso tinha brilho nos olhos. Tudo pronto para receber alta:  emprego, salário, possibilidade de pagar por um lar, dignidade.
Primeiro dia de trabalho: eis o corpo que levanta, eis a mente que raciocina, eis a esperança que renasce, mas na estação de trem há viagens que não tem volta... vida por um triz...última história: a própria.
A realidade trilha caminhos que nunca poderemos imaginar, e quando menos esperamos nossa história é interrompida, e somos esmagados pelos trens da vida cujos vagões são intermináveis e pesados demais para suportar. Adeus Lu.


Renata Foli