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segunda-feira, 25 de abril de 2016
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Drummond: o soluço de vida que rebenta de cada verso é imortal
No
dia 17 de agosto de 1987, há 28 anos, a luz se apagou para o poeta do
Sentimento do Mundo, Rosa do povo, do Claro Enigma... O poeta cujos poemas
transitam no tempo.
Nunca
esqueceremos Carlos. O soluço de vida que rebenta de cada verso é imortal.
Carlos
Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, em Itabira Minas Gerais,
cidade que influenciou sua obra. Seus primeiros trabalhos foram publicados no Diário de Minas. O poeta não demorou
para se impor no cenário da poesia brasileira, da melhor poesia. Também foi
cronista, jornalista e funcionário público.
O
poema No meio do Caminho, tão
conhecido, foi publicado em 1928 na Revista
de Antropofagia. Em 1930 publicou o seu primeiro livro Alguma poesia, que marca o início da segunda fase do Modernismo
brasileiro. O poema de abertura desse livro é Poema de sete faces, cujo eu-lírico manifesta a insatisfação com um
mundo onde a desesperança sufoca. Podemos lê-lo como autobiográfico, talvez
Carlos quisesse ter um retrato cuja imagem fosse desenhada em versos. Tudo indica
que sim.
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Esse
poema teve “filhos”, "filhos" nascidos da intertextualidade, “filhos” nascidos
também pelo amor a Drummond, cada “filho” com sua singularidade. Torquato neto escreveu LET'S PLAY THAT, musicado por Jards Macalé;
Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
Já
Chico Buarque escreveu Até o fim
“Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim...”
Em
Adelia Prado temos o poema Com licença
poética
“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada...”
O
próprio Poema de sete faces apresenta intertextualidade com um versículo bíblico.
(Evangelho de Mateus, capítulo 27, versículo 46).
“...o que quer dizer: Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
Drummond
não escondeu sua desilusão com o mundo, um mundo que causava mal-estar, encontramos
dentre as diversas temáticas: o retrato do cotidiano, os
problemas sociais e políticos ,não só mundiais como os brasileiros.
A
poesia de Drummond foi dividida em quatros fases. A primeira, conhecida como
Gauche, é a fase da reflexão existencial, do isolamento, do individualismo. A
segunda fase é a social, nesta o
poeta escreveu Sentimento do Mundo(1940), José (1942) e Rosa do Povo(1945). Temos
um Drummond mais participativo, o isolamento da primeira fase é substituído pelo
grito que ecoa a problemática do mundo.
A terceira fase é dividida em dois momentos, Dummond percorria novos caminhos, o da poesia filosófica e o da poesia nominal. A quarta fase (década de 70, 80), a última, é uma fase mais memorialística (Infância, família) e temas universais também são retomados.
A terceira fase é dividida em dois momentos, Dummond percorria novos caminhos, o da poesia filosófica e o da poesia nominal. A quarta fase (década de 70, 80), a última, é uma fase mais memorialística (Infância, família) e temas universais também são retomados.
Para finalizar a
singela homenagem, segue um dos mais belos poemas do poeta.
Sentimento do Mundo
Tenho
apenas duas mãos
e
o sentimento do mundo,
mas
estou cheio de escravos,
minhas
lembranças escorrem
e
o corpo transige
na
confluência do amor.
Quando
me levantar, o céu
estará
morto e saqueado,
eu
mesmo estarei morto,
morto
meu desejo, morto
o
pântano sem acordes.
Os
camaradas não disseram
que
havia uma guerra
e
era necessário
trazer
fogo e alimento.
Sinto-me
disperso,
anterior
a fronteiras,
humildemente
vos peço
que
me perdoeis.
Quando
os corpos passarem,
eu
ficarei sozinho
desfiando
a recordação
do
sineiro, da viúva e do microscopista
que
habitavam a barraca
e
não foram encontrados
ao
amanhecer
esse
amanhecer
mais
noite que a noite.
sábado, 15 de agosto de 2015
Versos íntimos ( Augusto dos Anjos)
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Leitores Famosos: a leitora Marilyn Monroe e o poema de António Ramos Rosa
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,
branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
Poema de António Ramos Rosa, in "Volante Verde"
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terça-feira, 16 de junho de 2015
Poetas e Poemas: Contranarciso – Paulo Leminski
em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
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sexta-feira, 29 de maio de 2015
Descobertas poéticas: Mia couto, o amor e a entrega
Desejo
poemas
Esses corpos escritos ultrapassam a
experiência estética. Que difícil contorná-los, defini-los...
Definir
a poesia de um poema para mim é matar o corpo e a mente dum poeta, assim como
os sentimentos. Esse ser Poeta que
admiro loucamente e me dá prazeres inenarráveis é só afeto, é um doar-se sem
egoísmo. É a síntese da doação mais valorosa, a que reúne todos os sentimentos
num corpo poético, num corpo livre, que mergulha fundo em nós. Somos Mar.
Quando
leio um poema, almejo a experiência na amplitude da palavra, aquela que nos
conecta com uma voz e um pensamento de outrem. Uma voz que ecoa dentro de nós e
se funde com nosso corpo.
Sinto
que o poema nos escolhe e não ao contrário. Lemos uma infinidade de textos que
não nos dizem nada, são apenas palavras em estrofes. Mas quando encontramos corpos escritos, corpos poéticos nos apaixonamos , nos viciamos num prazer sem fim, sentimos e temos uma das
melhores experiências de nossas vidas. Parece exagero, eu sei.
Não
quero fazer uma lista de poetas singulares e suas obras. Descobertas são
essenciais em nossas vidas, e incluo as descobertas poéticas.
Citarei
um Poema, desses com letra maiúscula que descobri há pouco tempo e que me tocou
profundamente pela singularidade, simplicidade, e riqueza. A temática é considerada,
para muitos, cliché e démodé, mas para mim é a base
de tudo. O poema é do maravilhoso Mia Couto, que já amo pela nobre doação e entrega.
O
Amor, Meu Amor
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além
do tempo.
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não
sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha
própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir
em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho
teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples
perfume,
lembrança de pétala sem chão
onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do
mar.
No
livro “Idades cidades divindades”
Espero
que tenham gostado!
Deixem-se
ser conquistados por poetas e poemas
Renata Ferreira
domingo, 24 de maio de 2015
❤Amor, Corpos, movimentos: Dança ❤
Coreografia Edifício, dirigida por Rogério Silva
❤Amor, Corpos, movimentos: Dança ❤
sábado, 23 de maio de 2015
Descobertas poéticas: "Às vezes se não durmo "
Às vezes se não durmo, o pensamento
Deixando o corpo sobre a cama quente,
Me leva mais ousado, que prudente,
Dos Astros a medir o movimento.
Peso, calculo, meço, e observo atento,
Quantos globos encerra o Céu luzente:
Contemplo os turbilhões, e finalmente
Me transporto até sobre o Firmamento.
Quantos globos encerra o Céu luzente:
Contemplo os turbilhões, e finalmente
Me transporto até sobre o Firmamento.
Descartes lá descubro: e nesse espaço,
Que existência só tem na fantasia,
Também meus Orbes risco, e Mundos faço.
Que existência só tem na fantasia,
Também meus Orbes risco, e Mundos faço.
E eis que vem com mais certa Geometria
Uma Pulga, e me morde no cachaço;
Vou-me arranhar; e adeus Filosofia.
Uma Pulga, e me morde no cachaço;
Vou-me arranhar; e adeus Filosofia.
CABRAL, Paulino António. "Às vezes se não durmo". In:_____. Poesias. Com um ensaio de Miguel Tamen. Lisboa: INCM, 1985.
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domingo, 28 de dezembro de 2014
Il pleut (Está chovendo), de Guillaume Apollinaire:
“Chovem vozes de mulheres como se
estivessem mortas mesmo na recordação. Chovem também vocês maravilhosos
encontros de minha vida ó gotinhas, e estas nuvens empinadas se põem a
relinchar todo um universo de cidades minúsculas. Escuta se chove enquanto a
mágoa e o desdém choram uma antiga música. Escuta caírem os laços que te retém
embaixo e em cima.”
segunda-feira, 5 de maio de 2014
MUDANÇA
Há quem atribua o poema a Clarice Lispector, outros a Cecília Meireles e outros a Edson Marques ....
MUDANÇA
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Descoberta musical: Guardia Nova
Um dos presentes que mais amo receber é música. Descobertas musicais
despertam em mim experiências estéticas que não saem da memória.
Segundo Adorno, cada obra de arte
é um instante; cada obra conseguida é um equilíbrio, uma pausa momentânea do
processo, e se manifesta ao olhar atento. Como estou falando de música, reformularei
a frase para ouvido atento.
No instante em que ouvi o som do Guardia Nova (Indicação da pessoa mais sensível
desse mundo), fiquei encantada, não apenas com os versos poéticos, mas com o
conjunto da “obra” e seu equilíbrio. Estou falando de equilíbrio musical como sinônimo
de música boa.
'Guardia Nova' é formada por Jan Pablo e Cavalcante Veras. Os caras são bons de fato, fazem música de verdade e são brasileirinhos (piauienses).
Lembrei do equilíbrio dito por Luiz Tati. Esse define canção, como Malabarismo
entre melodia, harmonia e letra. E é dessa forma que defino Guardia nova. E
quem venham novos trabalhos.
A
banda possui um EP (2011), intitulado “Guando chegar”. Esse disco marcou o início da
parceria dos integrantes da banda Trinco com Cavalcante Veras, dando origem à
Guardia Nova. Foi gravado e produzido por Jan Pablo, Cavalcante Veras, Hugo Trincado
e Dmitri Petit.
Já o primeiro LP da Guardia, foi gravado em 2013 com produção de
Jan Pablo e Cavalcante Veras, com exceção a "Melvin Jones" produzida
por Dmitri Petit e Jan Pablo. Todos os instrumentos presentes no disco foram
tocados e programados por Cavalcante Veras, Dmitri Petit e Jan Pablo.
Participação especial de Bruno Marques na bateria de "Setenta e Seis"
e Makeh(Violante) na voz de "Vestida de Branco".
Com
um processo de divulgação ainda tímido, na internet encontramos as seguintes informações:
"A gente se conheceu em 2011, dali em diante as identificações foram tantas, que só nos restou parir, desnudar o peito e deixar você ver-ouvir. Cantamos a dança, cantamos os cantos por quais passamos, esse enternecimento, os desamparos, cantamos o sol, a noite por cima das casas e cantamos o mar, pra ver se ele quebra bonito na praia dessas crias". A Guardia.
Setenta e Seis
De nós, quem vai durar?
Passar pelos setenta e seis
Quem vai passar a mão nos olhos do tempo?
Nós dois, não sei
Menina, mal começamos
Mas se for contigo, eu digo: oba!
Passar pelos setenta e seis
Quem vai passar a mão nos olhos do tempo?
Nós dois, não sei
Menina, mal começamos
Mas se for contigo, eu digo: oba!
Vem, vem que nossa verdade não tarda a chegar
Uh, estampei na camisa a cara dela
Vem, vem do jeito que queira, só não demora
Mora aqui, se quiser
Deixa tudo beleza
Uh, estampei na camisa a cara dela
Vem, vem do jeito que queira, só não demora
Mora aqui, se quiser
Deixa tudo beleza
A luz acende a nos incendiar
A voz que canta a iluminar
Vamos sambando, bambos, rua abaixo
Pela quadra setenta e seis
Quem vem comigo nessa hora
Pergunto agora: será você?
A voz que canta a iluminar
Vamos sambando, bambos, rua abaixo
Pela quadra setenta e seis
Quem vem comigo nessa hora
Pergunto agora: será você?
Vem, vem que nossa verdade não tarda a chegar
Uh, estampei na camisa a cara dela
Vem, vem do jeito que queira, só não demora
Mora aqui, se quiser
Deixa tudo beleza
Uh, estampei na camisa a cara dela
Vem, vem do jeito que queira, só não demora
Mora aqui, se quiser
Deixa tudo beleza
Renata Ferreira
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