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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Leitores Famosos: a leitora Marilyn Monroe e o poema de António Ramos Rosa

A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
               Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.         


Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,


branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.














Poema de António Ramos Rosa, in "Volante Verde" 

sábado, 13 de junho de 2015

Leonid Afremov: cores alegres e vivas que não deveríamos esquecer


Encantada. Essa palavra me define diante das obras de Leonid Afremov. As cores alegres e vivas usadas pelo artista denotam a poesia e paixão que me esforço para ver e viver diariamente.
 A poesia e as cores esquecidas pelos olhares sombrios de toda gente ainda estão por toda parte. Não, não é mera experiência estética, ainda é possível experimentar o mundo que os artistas veem e se inspiram.
Sejamos artistas, tenhamos sensibilidade; podemos pintar nosso quadro humano de forma marcante e delicada. Sim, o resultante de nossas vidas pode ser uma obra à la Afremov, à la fotografia e cores vibrantes de Amélie Poulain.
Sim, eu ainda ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome e amo passear no escuro pois testo minha paleta viva.
Nosso chão ainda pode ser o reflexo do céu que escolhemos para nosso olhar. Não importando a estação que vivemos, as “cores precisam eclodir mesmo nos dias mais cinzentos”.[1]
Segundo Adorno, cada obra de arte é um instante; cada obra conseguida é um equilíbrio, uma pausa momentânea do processo, e se manifesta ao olhar atento. Desta forma, abram os olhos e aprendam apreciar cada instante e cores de seu mundo vivo. Ultrapasse os limites da tela, permita-se não caber numa moldura, expanda-se, viva, pois sempre haverá uma cor por descobrir.











"Leonid Afremov é um pintor Bielo-russo que nasceu na cidade de Vitebsk em 1955. Coincidentemente ou não, ele nasceu na mesma cidade que Marc Chagall, o famoso artista que também fundou a Vitebsk Art School em parceria com Malevich & Kandinsky. Leonid Afremov se formou na Vitebsk Art School em 1978 e é um dos membros da elite. Suas pinturas são muitas vezes paisagens coloridas, cidades e personagens. Elas são tipicamente pintadas usando uma espátula e tinta óleo".








[1] Jeferson Quintella ( mon amour)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Descobertas poéticas: Mia couto, o amor e a entrega

Desejo poemas
 Esses corpos escritos ultrapassam a experiência estética. Que difícil contorná-los, defini-los...
Definir a poesia de um poema para mim é matar o corpo e a mente dum poeta, assim como os sentimentos. Esse ser Poeta que admiro loucamente e me dá prazeres inenarráveis é só afeto, é um doar-se sem egoísmo. É a síntese da doação mais valorosa, a que reúne todos os sentimentos num corpo poético, num corpo livre, que mergulha fundo em nós. Somos Mar.
Quando leio um poema, almejo a experiência na amplitude da palavra, aquela que nos conecta com uma voz e um pensamento de outrem. Uma voz que ecoa dentro de nós e se funde com nosso corpo.
Sinto que o poema nos escolhe e não ao contrário. Lemos uma infinidade de textos que não nos dizem nada, são apenas palavras em estrofes. Mas quando encontramos corpos escritos, corpos poéticos nos apaixonamos , nos viciamos num prazer sem fim, sentimos e temos uma das melhores experiências de nossas vidas. Parece exagero, eu sei.
Não quero fazer uma lista de poetas singulares e suas obras. Descobertas são essenciais em nossas vidas, e incluo as descobertas poéticas.
Citarei um Poema, desses com letra maiúscula que descobri há pouco tempo e que me tocou profundamente pela singularidade, simplicidade, e riqueza. A temática é considerada, para   muitos, cliché e démodé, mas para mim é a base de tudo. O poema é do maravilhoso Mia Couto, que já amo pela nobre doação e entrega.

O Amor, Meu Amor
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.

E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,

lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

No livro “Idades cidades divindades”


Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de trinta livros, entre prosa e poesia. Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt Prize de 2014. É membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.







Espero que tenham gostado!
Deixem-se ser conquistados por poetas e poemas





Renata Ferreira

sábado, 23 de maio de 2015

Descobertas poéticas: "Às vezes se não durmo "



Às vezes se não durmo, o pensamento
Deixando o corpo sobre a cama quente,
Me leva mais ousado, que prudente,
Dos Astros a medir o movimento.
Peso, calculo, meço, e observo atento,
Quantos globos encerra o Céu luzente:
Contemplo os turbilhões, e finalmente
Me transporto até sobre o Firmamento.
Descartes lá descubro: e nesse espaço,
Que existência só tem na fantasia,
Também meus Orbes risco, e Mundos faço.
E eis que vem com mais certa Geometria
Uma Pulga, e me morde no cachaço;
Vou-me arranhar; e adeus Filosofia.

CABRAL, Paulino António. "Às vezes se não durmo". In:_____. Poesias. Com um ensaio de Miguel Tamen. Lisboa: INCM, 1985.