segunda-feira, 25 de abril de 2016
19 não é 20
19 não é 20. E não é mesmo. O azeite está custando R$ 20, e levei para o mercado R$19. A inscrição para o concurso literário é R$40, para estudante universitário fica por R$ 20, juntando as moedas tem R$19,20. Manicure R$20, e só a mão hein. Melhor amolar o alicate e comprar uns esmaltes com os R$19. O site submarino tem livros na promoção. Qualquer um por R$19,99. É, não deu.
Pois é, ter aquele diploma de universidade pública e o CR 9,9, não garante um bom emprego, às vezes nem um emprego. Ficar em primeiro lugar em todos os concursos de poesia na escola, não garante aquela publicação na editora que tanto almeja. Escrever bem nas redações escolares e na faculdade, não garante aquela coluna.
É, a teoria não é a realidade. Sua geração não é a mais inteligente e com mais oportunidade. Seu orientador pode te desorientar. A saúde que sempre teve pode desmoronar.
É, você pode perder mesmo tendo tudo para ganhar. Você pode amar e não ser correspondido. Você pode ter filhos e não curtir ser mãe ou pai. Vestir-se em cores alegres, mas ser uma cor triste. Ser uma ótima advogada, lutar pelos direitos de todos, mas esquecer dos seus. Ou ainda ser uma ótima psicóloga, dar conselhos maravilhosos e não seguir nenhum.
É, você pode ter mais de 20, e agir como uma criança de 10. E isso pode ser muito bom para algumas coisas e destruir outras em sua vida. Pois é, aquele relacionamento de 19 anos pode acabar antes de completar os 20.
É, nem tudo segue como planejamos. “É o rio da vida correndo”. Saber nadar pode impedir ou não um afogamento. Ás vezes, é preciso estender a mão e pedir ajuda.
Tem R$ 1 aí?
Renata Foli
Tem R$ 1 aí?
Renata Foli
sábado, 12 de março de 2016
Olhares...
Um corpo que mergulha em Quissamã
Corpos que caem como chuva dum prédio no Maracanã
Ou da ponte mais alta da cidade....
A covardia do ser? Ou a coragem de ser?
Desejo comum dos corpos que caem.
A palavra de oito letras não cabe no noticiário
Não sai da boca, não entra em discussão
Desejo comum dos corpos que caem.
A palavra de oito letras não cabe no noticiário
Não sai da boca, não entra em discussão
A presença ausência dribla os olhares desinteressados
E corpos caem, pulam, envenenam-se
a doença cresce sem rumo,
Por toda parte, ao nosso redor
E corpos caem, pulam, envenenam-se
a doença cresce sem rumo,
Por toda parte, ao nosso redor
Mas os olhares desinteressados ....
Renata Foli
Renata Foli
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Drummond: o soluço de vida que rebenta de cada verso é imortal
No
dia 17 de agosto de 1987, há 28 anos, a luz se apagou para o poeta do
Sentimento do Mundo, Rosa do povo, do Claro Enigma... O poeta cujos poemas
transitam no tempo.
Nunca
esqueceremos Carlos. O soluço de vida que rebenta de cada verso é imortal.
Carlos
Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, em Itabira Minas Gerais,
cidade que influenciou sua obra. Seus primeiros trabalhos foram publicados no Diário de Minas. O poeta não demorou
para se impor no cenário da poesia brasileira, da melhor poesia. Também foi
cronista, jornalista e funcionário público.
O
poema No meio do Caminho, tão
conhecido, foi publicado em 1928 na Revista
de Antropofagia. Em 1930 publicou o seu primeiro livro Alguma poesia, que marca o início da segunda fase do Modernismo
brasileiro. O poema de abertura desse livro é Poema de sete faces, cujo eu-lírico manifesta a insatisfação com um
mundo onde a desesperança sufoca. Podemos lê-lo como autobiográfico, talvez
Carlos quisesse ter um retrato cuja imagem fosse desenhada em versos. Tudo indica
que sim.
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Esse
poema teve “filhos”, "filhos" nascidos da intertextualidade, “filhos” nascidos
também pelo amor a Drummond, cada “filho” com sua singularidade. Torquato neto escreveu LET'S PLAY THAT, musicado por Jards Macalé;
Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
Já
Chico Buarque escreveu Até o fim
“Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim...”
Em
Adelia Prado temos o poema Com licença
poética
“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada...”
O
próprio Poema de sete faces apresenta intertextualidade com um versículo bíblico.
(Evangelho de Mateus, capítulo 27, versículo 46).
“...o que quer dizer: Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
Drummond
não escondeu sua desilusão com o mundo, um mundo que causava mal-estar, encontramos
dentre as diversas temáticas: o retrato do cotidiano, os
problemas sociais e políticos ,não só mundiais como os brasileiros.
A
poesia de Drummond foi dividida em quatros fases. A primeira, conhecida como
Gauche, é a fase da reflexão existencial, do isolamento, do individualismo. A
segunda fase é a social, nesta o
poeta escreveu Sentimento do Mundo(1940), José (1942) e Rosa do Povo(1945). Temos
um Drummond mais participativo, o isolamento da primeira fase é substituído pelo
grito que ecoa a problemática do mundo.
A terceira fase é dividida em dois momentos, Dummond percorria novos caminhos, o da poesia filosófica e o da poesia nominal. A quarta fase (década de 70, 80), a última, é uma fase mais memorialística (Infância, família) e temas universais também são retomados.
A terceira fase é dividida em dois momentos, Dummond percorria novos caminhos, o da poesia filosófica e o da poesia nominal. A quarta fase (década de 70, 80), a última, é uma fase mais memorialística (Infância, família) e temas universais também são retomados.
Para finalizar a
singela homenagem, segue um dos mais belos poemas do poeta.
Sentimento do Mundo
Tenho
apenas duas mãos
e
o sentimento do mundo,
mas
estou cheio de escravos,
minhas
lembranças escorrem
e
o corpo transige
na
confluência do amor.
Quando
me levantar, o céu
estará
morto e saqueado,
eu
mesmo estarei morto,
morto
meu desejo, morto
o
pântano sem acordes.
Os
camaradas não disseram
que
havia uma guerra
e
era necessário
trazer
fogo e alimento.
Sinto-me
disperso,
anterior
a fronteiras,
humildemente
vos peço
que
me perdoeis.
Quando
os corpos passarem,
eu
ficarei sozinho
desfiando
a recordação
do
sineiro, da viúva e do microscopista
que
habitavam a barraca
e
não foram encontrados
ao
amanhecer
esse
amanhecer
mais
noite que a noite.
sábado, 15 de agosto de 2015
Versos íntimos ( Augusto dos Anjos)
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Acreditava que não sofria preconceito racial
"Preta, Preta, Pretinha!"
Quando crescemos a cruel realidade bate à retina e nos deparamos com um mundo violento, da segregação racial, de pessoas preconceituosas e de muitos discursos e situações chocantes; tudo tão desumano que o olhar de uma criança não alcança.
O
preconceito racial, por exemplo, temática desse texto, era algo “distante" da
minha realidade, algo que eu não acreditava sofrer [mesmo sendo negra e morando
numa comunidade].
Cheguei
a ouvir na infância alguns depoimentos que me deixavam triste, de alguns
coleguinhas de classe, mas me pareciam distantes. Não compreendia a dimensão e
gravidade da questão, aquilo nunca fora assunto conversado por professores ou
familiares. Achava que era uma brincadeira de mau gosto, mas brincadeira. Pensava: não sofro isso, uma pena eles
sofrerem. Isso era o máximo de reflexão. Afinal, minha ingenuidade não captava
a questão, não captava o que era o preconceito racial, muito mesmo o
preconceito velado
Assim,
acreditava viver num país das maravilhas no que concerne o racismo e exclusão.
O
fato é que agora consigo enxergar a ignorância, preconceito e a face por trás
do véu de muitas pessoas. E, hoje, sem a ingenuidade da infância e adolescência
posso unir todas as frases ouvidas e montar um grande quebra cabeça chamado
racismo. E para completar as peças, posso somar as frases que ouço na fase
adulta.
Cresci
numa família onde a maioria são brancos e me tratavam assim também. Ops:
Primeiro preconceito. Ao falarem mal dos cabelos das “negrinhas” da rua, na
minha frente, diziam que o meu era bom. Eu não falava, mas pensava: o meu é
igual.
Quanto
a cor, era mais bizarro ainda, eu nunca fui negra, era a moreninha do cabelo
enrolado (Com o pai negro e mãe branca, eu nasci um pouco mais clara, o que
para eles era o suficiente para eu não ser negra).
Eu não sabia que tudo isso era preconceito
velado, conforme fui crescendo comecei a questionar, e diziam: “não somos
preconceituosos, “gostamos dos pretos” e há pretos na família”, “já namorei
preto”. É, agora entendo como são ou eram ignorantes. Poderiam ter ou não a
noção disso, mas não deixavam de ser.
Uma
prima começou a namorar com um negro, e mesmo havendo negros na família, ela
ouviu: pense nos seus filhos como terá trabalho para pentear os cabelos dessas
crianças. Na hora eu questionei o horror da frase, mas sabe como é, adultos tem
sempre razão.
Chegou
um momento que eu não aceitava ser considerada a moreninha, eu sou negra. Mas,
o mais intrigante que não era algo apenas do núcleo familiar, percebi que as
pessoas não sabiam o que era ser negro, e se sabiam, achavam que era ofensa.
Debati infinitas vezes com pessoas que negavam a minha cor, e quando eu
afirmava, pedindo para me encararem, diziam que eu queria assunto, pois não era
negra. Alguns tiveram a petulância de mostrar pessoas consideradas negras, ou
seja, tem que ser “tição” e você não é.
Poderia
ficar horas aqui escrevendo as frases, mas quero acreditar que vocês não
precisam de muitas descrições para perceberem o que é preconceito velado, principalmente
o praticado por familiares.
Adulta,
percebo que o preconceito racial está por toda a parte, velado ou não precisamos identificá-lo,
não importa se é membro da família, amigo, ou alguém que acabamos de conhecer,
conscientizar essas pessoas que acreditam não serem preconceituosas é
primordial na luta contra o racismo.
Muitas
das vezes é só ignorância, é cegueira, e precisamos fazê-las enxergar o quão
idiota é esse discurso, antes que isso se impregne e torne algo consciente.
Precisamos repreender as atitudes racistas com mais empenho e voracidade.
Acredito que todos são capazes de educar, principalmente
em questões sociais, raciais, humanas, etc. Não dá para esperar que a escola faça isso, ou
pais sem noção, que criam filhos preconceituosos, incapazes de respeitar o
próximo.
No
primeiro dia numa universidade pública, numa reunião de boas-vindas com os
veteranos. Escutei de uma mulher branca, moradora da zona sul do Rio a seguinte
frase: VOCÊ MORA NA BAIXADA, EM DUQUE DE CAXIAS, NÃO PARECE. SÉRIO, NÃO PARECE,
É INTELIGENTE.
Contexto:
aquela mulher branca numa faculdade de humanas, conversava comigo sobre
literatura, música; o papo rico ia muito bem, até eu falar de onde vinha. Com
muita calma, eu a enxerguei como uma criança que precisava ser educada, e a
disse: Na Baixada Fluminense há pessoas maravilhosas, inteligentes, e que são
capazes de fazer parte daquele lugar, tanto quanto a mocinha preconceituosa. Sim,
o discurso é preconceituoso. Disse também, que como alguém que é da área de
humanas, HUMANAS, pode falar daquele jeito. Expliquei o que era segregação
racial. Enfim, encerramos a conversa e ela com olhos arregalados me pediu
desculpas e disse que não teve a intenção. Expliquei que o preconceito muita
das vezes está em pessoas que “não tem a intenção”.
Outra
situação, mais atual: ouvi de um familiar de alguém que amo muito o seguinte:
você é pretinha mas é muito bonita. Agora, imaginem a situação, a mulher que me
disse isso é negra, negra com todos os traços. Mas, adivinhem não se considera
negra. E por mais que eu tenha explicado mil vezes o que era racismo, racismo
velado etc, os neurônios da pessoa não alcançaram a mensagem, e não viu nada de
ofensivo na frase. E disse, que eu estava exagerando.
Em
que mundo esses hipócritas vivem, respondam?
Porque eu tenho muita dificuldade de entender: É “burrice” mesmo? porque
não é só ignorância. Quando alguém te explica algo importante e você continua
ignorando...O que devo pensar de você?
Por
fim, acho que há casos que não tem jeito, o indivíduo é preconceituoso mesmo e
ponto; não usa máscaras, e é tudo muito explícito, precisam pagar pelo crime de
racismo. Mas como sou uma pessoa otimista e muito observadora, sei que há casos
de preconceito velado que não passa de ignorância, o indivíduo cresceu ouvindo
isso e reproduz, como uma criança, nesses casos devemos tentar usar o poder da
educação. Analisar o contexto da frase e a pessoa; o cara é racista mesmo? Ou teve
uma atitude racista? precisa de ajuda para entender sobre o assunto? Posso
ajudá-lo? Posso tentar explicar o que é racismo, velado ou não?
Acredito
que podemos fazer muita coisa, o que não podemos é ficar de braços cruzados,
apenas apontando o preconceito. Conscientizar essas pessoas que acreditam não
ser preconceituosas é primordial para melhoramos a situação dos
negros, principalmente os que ainda não sabem dos seus direitos, os que aceitam
calados.
Quando o indivíduo entender de fato, ele
refletirá e assim poderá identificar outros discursos racistas e ajudar outras
pessoas a compreenderem. Não custa tentar.
E
para finalizar o singelo texto, segue um diálogo no banheiro de uma grande
empresa. Onde todas as pessoas deveriam informar e refletir sobre questões
sociais e raciais; onde a maioria é formado em comunicação social.
Situação:
Mulher negra (Eu) diante do espelho, passando silicone nas pontas dos
cachinhos. Naquele dia meu cabelo estava maravilhosamente lindo :-)
Mulher
branca: Deve ser difícil cuidar disso tudo, neh? Pentear ?
Eu:
Não
Mulher
branca: Como você faz, lava todos os dias?
Eu:
Como você faz com o seu?
Mulher
branca: Lavo duas vezes por semana
Eu:
Então, eu lavo três
Mulher
branca: Sério?
Eu:
Sim
Mulher
branca: Tenho uma vizinha que a filha tem o cabelo assim, ela reclama muito,
dói o braço para pentear, ela diz que é um sofrimento, e é horrível. Acho que vai cortar.
Eu:
Diz a sua vizinha, que a filha dela tem cabelo, logo precisa ser lavado,
condicionado, hidratado como o seu ou de qualquer outra pessoa. Se não há
cuidados básicos, obviamente, qualquer cabelo ficará um pouco ou mais embolado.
Mulher
branca: olhos arregalados
Eu:
uma pena quando o preconceito vem da própria família, e as crianças crescem
achando que ter o cabelo crespo é ruim. Tristíssimo uma mãe tão ignorante como
essa.
Mulher
branca: Ainda bem que eu não sou preconceituosa.
Eu.
OK, boa tarde.
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